
Verbo é a classe de palavras que organiza um processo — ação, estado, mudança, ocorrência ou fenômeno — e pode situá-lo em relação ao tempo, à atitude do falante e aos participantes. Em os candidatos estudaram, estudaram expressa o processo e marca passado, indicativo, terceira pessoa e plural.
Ideia central: o verbo não é reconhecido apenas pelo sentido de “ação”. Flexão, posição na oração e relação com os participantes são critérios mais seguros.
Como reconhecer um verbo
Verbos podem expressar:
- ação: a equipe analisou os recursos;
- estado: a candidata permanece tranquila;
- mudança: o resultado ficou disponível;
- fenômeno: choveu durante a prova;
- ocorrência ou existência: houve alterações.
O sentido sozinho falha. Corrida sugere ação, mas é substantivo; está não descreve ação, mas é verbo. Teste a flexão: analiso/analisamos/analisarei/analisaria. Verbos formam o núcleo do predicado e podem selecionar participantes e complementos.
Este tópico aprofunda Classes de palavras e pressupõe as pessoas do discurso estudadas em Pronome.
Estrutura da forma verbal

Em uma análise escolar, a forma pode conter:
- radical: concentra o significado lexical —
estud-; - vogal temática: indica a conjugação —
aem estudar; - tema: radical + vogal temática —
estuda-; - desinência modo-temporal: informa modo e tempo —
vano pretérito imperfeito do indicativo; - desinência número-pessoal: informa pessoa e número —
mosem primeira pessoa do plural.
Assim, estudávamos pode ser segmentado didaticamente como estud-a-va-mos. Nem toda forma apresenta cada elemento de maneira transparente: irregularidades, fusões e alterações fonológicas exigem comparação com o paradigma.
As três conjugações
O infinitivo termina tipicamente em:
- -ar: primeira conjugação — estudar, analisar;
- -er: segunda — vender, fazer;
- -ir: terceira — partir, decidir.
Pôr e seus derivados são tradicionalmente vinculados à segunda conjugação por sua história e por formas antigas relacionadas a poer. A conjugação orienta terminações, mas não determina se o verbo é regular.
Regular, irregular, anômalo, defectivo e abundante
Regular mantém radical e terminações do modelo: estudar → estudo, estudava, estudarei. Irregular apresenta alteração: fazer → faço, fiz, farei. A irregularidade pode ocorrer no radical, nas terminações ou em ambos.
Na tradição escolar:
- anômalo possui paradigmas com alterações profundas, como ser e ir;
- defectivo não é usado em todas as formas por restrições históricas, semânticas ou de uso;
- abundante apresenta mais de uma forma equivalente, especialmente no particípio: aceitado/aceito, entregado/entregue.
O uso dos particípios varia por verbo e variedade. A regra antiga “forma regular com ter/haver e irregular com ser/estar” descreve tendências, não resolve todos os casos contemporâneos. Consulte fonte lexical quando houver dúvida.
Pessoa e número
As marcas verbais relacionam-se ao sujeito:
| Pessoa | Singular | Plural |
|---|---|---|
| primeira | eu estudo | nós estudamos |
| segunda | tu estudas | vós estudais |
| terceira | ele/ela/você estuda | eles/elas/vocês estudam |
O sujeito pode estar oculto porque a forma verbal e o contexto o recuperam: Chegamos cedo indica primeira pessoa plural. Em formas iguais, o contexto decide: eu estudava e ela estudava compartilham terminação.
Pessoa e número preparam o estudo da concordância, mas casos como sujeito composto, coletivo, porcentagem e construções com se pertencem à página específica.
Modo: a perspectiva sobre o processo

Indicativo
Apresenta o processo como fato, informação assumida ou cenário considerado pelo falante:
- O edital foi publicado.
- A prova começa amanhã.
Não significa “certeza absoluta”. Uma previsão pode aparecer no indicativo — choverá amanhã — porque o modo marca a forma de apresentação, não garante a verdade.
Subjuntivo
É frequente em hipóteses, desejos, avaliações, finalidades e situações dependentes:
- Talvez o resultado saia hoje.
- Se eu estudasse mais, teria segurança.
- Espero que todos sejam aprovados.
Também não equivale simplesmente a “dúvida”. Certas estruturas e conjunções selecionam o subjuntivo mesmo quando a intenção é clara: para que todos participem.
Imperativo
Expressa ordem, pedido, conselho, convite ou instrução:
- Leia o enunciado.
- Não se precipite.
- Vamos revisar.
O efeito depende de entonação, contexto e marcas de cortesia. A forma gramatical imperativa pode soar como recomendação, não apenas comando.
Tempos do indicativo
Presente
Pode indicar o momento da fala, hábito, verdade geral, narrativa ou futuro próximo:
- Estou pronto agora.
- Estudo todos os dias.
- A água ferve a determinada temperatura.
- Amanhã começo a revisão.
Pretérito perfeito
Apresenta geralmente o processo como concluído e delimitado: A banca publicou o resultado ontem. Na forma composta brasileira — tem publicado — costuma indicar repetição ou continuidade até o presente, não simples passado concluído.
Pretérito imperfeito
Constrói hábito, duração, simultaneidade, descrição ou cortesia no passado: eu estudava à noite; enquanto lia, anotava; eu queria uma informação.
Pretérito mais-que-perfeito
Situa um processo anterior a outro passado: Quando cheguei, a prova já começara. A forma simples é mais literária ou formal; já tinha começado é comum no português brasileiro.
Futuro do presente
Pode marcar posterioridade, previsão, promessa ou hipótese sobre o presente: O resultado sairá amanhã; Onde estará o fiscal agora?
Futuro do pretérito
Pode indicar consequência condicionada, posterioridade em relação ao passado, hipótese ou cortesia: Eu faria o recurso se houvesse fundamento; disse que retornaria; você poderia ajudar?
Tempos do subjuntivo
- presente: Espero que ele estude.
- pretérito imperfeito: Se ele estudasse, avançaria.
- futuro: Quando ele estudar, compreenderá.
Não confunda futuro do subjuntivo com infinitivo pessoal em formas iguais: quando eles estudarem expressa condição temporal futura; para eles estudarem é infinitivo pessoal introduzido por preposição. A estrutura da oração decide.
Tempo verbal e tempo cronológico
Forma e sentido temporal não mantêm relação rígida. O presente pode narrar o passado — Em 1822, o Brasil declara a independência — ou indicar futuro — viajo amanhã. O futuro do pretérito pode expressar polidez, e o imperfeito pode suavizar um pedido.
Em interpretação, identifique:
- a forma morfológica;
- o ponto temporal construído;
- o efeito discursivo naquele gênero e contexto.
Aspecto verbal
Aspecto mostra como o processo é observado internamente: concluído, em curso, habitual, iniciado, repetido ou resultante. Compare:
- leu o edital — processo delimitado;
- lia o edital — processo em desenvolvimento ou habitual;
- está lendo — curso no momento relevante;
- começou a ler — início;
- voltou a ler — repetição;
- acabou de ler — término recente.
Tempo localiza; aspecto configura o desenvolvimento. A mesma faixa temporal pode receber perspectivas diferentes.
Formas nominais
As formas nominais não marcam por si, de modo completo, tempo e modo; dependem da construção.
Infinitivo
Apresenta o processo sem ancoragem plena: estudar, vender, partir. Pode aproximar-se de um substantivo — o estudar exige disciplina — e formar orações: é necessário revisar.
O português possui infinitivo pessoal:
- para eu estudar;
- para nós estudarmos;
- por eles chegarem cedo.
A flexão explicita o sujeito quando isso contribui para clareza, contraste ou autonomia da oração. Infinitivo impessoal e pessoal dependem da construção; não há regra única baseada apenas na existência de sujeito.
Gerúndio
Termina em -ndo e é invariável: estudando, vendendo, partindo. Pode indicar processo em curso, simultaneidade, modo, causa ou condição:
- estava estudando;
- entrou sorrindo;
- estudando com método, você evolui.
O chamado “gerundismo” não é o uso do gerúndio em si, mas o emprego excessivo ou inadequado de perífrases como vou estar encaminhando quando uma forma simples seria mais clara. Em contextos de duração real — durante a tarde, estarei analisando os recursos — a perífrase pode ser legítima.
Particípio
Apresenta frequentemente resultado ou estado decorrente: estudado, vendido, partido. Com ter/haver, participa de tempos compostos e tende a permanecer invariável: elas tinham estudado. Na passiva ou em uso adjetival, concorda: as provas foram corrigidas; questões corrigidas.
A explicação do Ciberdúvidas sobre formas nominais destaca justamente a dependência contextual do infinitivo, do gerúndio e do particípio.
Locuções verbais
Uma locução ou perífrase reúne auxiliar e verbo principal em forma nominal. O auxiliar concentra flexão; o principal preserva o conteúdo lexical:
- tinha estudado — tempo composto;
- está estudando — processo em curso;
- vai estudar — futuro ou intenção;
- deve estudar — obrigação ou probabilidade, conforme contexto;
- começou a estudar — início;
- foi aprovado — voz passiva.
Nem toda sequência de dois verbos é locução. Em gosta de estudar, gostar conserva sentido pleno e seleciona uma oração como complemento. Teste o grau de integração semântica e sintática, não apenas a proximidade.
Vozes verbais

Voz ativa
O sujeito ocupa a posição sintática de maior destaque, frequentemente como agente:
A banca corrigiu as provas.
Mas sujeito de ativa não é sempre agente: A candidata recebeu a notícia. A voz é categoria sintática; o papel semântico pode ser experienciador, alvo ou causa.
Passiva analítica
O objeto direto da ativa torna-se sujeito paciente; o agente pode aparecer ou ser omitido:
As provas foram corrigidas pela banca.
O tempo e o modo ficam no auxiliar ser; o particípio concorda com o sujeito. Somente verbos que admitem objeto direto formam normalmente esse tipo de passiva.
Passiva sintética
Forma-se com verbo transitivo direto ou direto e indireto + se apassivador:
Corrigiram-se as provas.
As provas é sujeito e, no padrão formal, o verbo concorda no plural. Compare precisa-se de revisores: como precisar de exige preposição, a análise tradicional considera sujeito indeterminado e verbo no singular, não passiva.
Reflexiva e recíproca
Na reflexiva, o processo recai sobre o próprio sujeito: A candidata se feriu; o reforço a si mesma é possível. Na recíproca, participantes atuam mutuamente: Os colegas se cumprimentaram — um ao outro.
Nem todo verbo com se é reflexivo. Em ela se arrependeu, o pronome integra o verbo pronominal; não significa que ela “arrependeu a si mesma”.
Verbos de ligação e predicação
Verbos como ser, estar, permanecer, ficar, parecer, continuar podem ligar o sujeito a uma característica:
- A prova estava difícil.
- O candidato permaneceu calmo.
A classificação depende do uso. Em o candidato ficou em casa, ficou indica permanência/localização e a análise sintática pode diferir. Não classifique uma lista inteira como “de ligação” sem examinar o predicado.
Verbos significativos podem ser intransitivos, transitivos diretos, indiretos ou diretos e indiretos conforme os complementos que selecionam. Esse assunto será aprofundado em Regência.
Um método seguro de análise
- Localize a forma ou o conjunto verbal.
- Encontre infinitivo, radical e conjugação quando isso ajudar.
- Identifique pessoa, número, tempo e modo.
- Interprete o valor temporal e aspectual no contexto.
- Verifique se há auxiliar e qual contribuição ele oferece.
- Analise sujeito, complementos e voz.
- Compare possíveis reescritas sem presumir que conservam foco e efeito.
Exemplos comentados
“Amanhã entrego o recurso”
Entrego está morfologicamente no presente do indicativo, mas o advérbio amanhã produz leitura futura. Forma verbal e tempo cronológico não são idênticos.
“Talvez tenham divulgado o resultado”
Tenham divulgado é forma composta do presente do subjuntivo. Talvez favorece a apresentação não assertiva; o particípio permanece invariável com ter.
“Vendem-se apostilas”
Na análise normativa tradicional, há passiva sintética: apostilas são vendidas. O verbo concorda com o sujeito plural.
“Trabalha-se bem aqui”
Não há objeto direto que possa virar sujeito paciente. O se indetermina o sujeito e o verbo fica na terceira pessoa singular.
Armadilhas frequentes
- Verbo não expressa apenas ação.
- Tempo morfológico não corresponde sempre ao tempo cronológico.
- Indicativo não garante certeza; subjuntivo não significa apenas dúvida.
- Toda sequência de verbos não é locução verbal.
- Particípio com ter/haver é invariável; em passiva, concorda com o sujeito.
- Todo
senão indica passiva nem reflexividade. - Voz passiva não é sinônimo de sujeito “sofrer” semanticamente.
- Verbo de ligação depende do emprego, não de lista fixa.
- Concordância e regência exigem análise própria além da identificação verbal.
Síntese
- O verbo organiza processos e concentra flexões.
- Radical traz base lexical; terminações marcam categorias gramaticais.
- Indicativo, subjuntivo e imperativo constroem perspectivas diferentes.
- Presente, passados e futuros assumem valores contextuais variados.
- Aspecto mostra início, curso, repetição, conclusão ou resultado.
- Infinitivo, gerúndio e particípio são formas nominais.
- Auxiliar + forma nominal pode constituir locução verbal.
- Voz reorganiza participantes e foco sintático.
- Forma, estrutura e contexto devem ser analisados juntos.
Próximos passos
Avance para Advérbio, que mostra como circunstâncias, graus, focos e avaliações modificam o processo verbal. Concordância aprofunda pessoa e número; Regência, a seleção dos complementos; Colocação pronominal, a posição dos clíticos. Retome também Pronome e Classes de palavras.
Referências
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo.
- AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa.
- Formas nominais do verbo — Ciberdúvidas.
- Locução verbal e conjugação composta — Ciberdúvidas.
- Passiva e papéis temáticos — Ciberdúvidas.
- VOLP — Academia Brasileira de Letras.