
Conjunção é uma palavra invariável que articula termos, grupos ou orações e ajuda a construir relações de sentido. Em leu e resumiu, e adiciona processos; em leu porque precisava revisar, porque apresenta a causa da leitura.
Ideia central: primeiro descubra quais segmentos estão conectados e como se organizam; somente depois classifique o sentido da conjunção.
Conectar não é apenas colocar lado a lado
Uma conjunção pode ligar:
- palavras: provas e recursos;
- grupos: com atenção e sem pressa;
- orações: estudou, mas não revisou;
- um enunciado ao anterior: O prazo terminou. Mas ainda cabe recurso?
Nos dois primeiros casos, os segmentos coordenados exercem função equivalente. Entre orações, a ligação pode ser coordenativa ou subordinativa. Por isso, “liga palavras” é uma definição incompleta.
Este conteúdo aprofunda Classes de palavras e pressupõe a identificação do Verbo, que permite delimitar orações.
Coordenação e subordinação

Coordenação
Articula segmentos estruturalmente equivalentes, sem que um exerça função sintática interna no outro:
- Ana e Bruno recorreram — dois grupos nominais;
- estudou, mas não revisou — duas orações;
- com calma ou com rapidez — dois grupos preposicionais.
As orações coordenadas possuem autonomia sintática relativa, embora o texto mantenha dependência de sentido entre elas.
Subordinação
Uma oração passa a desempenhar uma função ou integrar a estrutura de outra:
- Espero que você passe — a oração completa espero;
- Saí quando a prova terminou — a oração situa saí no tempo;
- Estudou porque precisava melhorar — a oração apresenta a causa.
Coordenação e subordinação são relações estruturais. Adição, oposição, causa e condição são relações semânticas. Misturar os dois níveis gera classificações frágeis.
Conjunções e locuções conjuntivas
Conjunções simples têm uma palavra: e, mas, ou, porque, embora, conforme, quando, se. Locuções conjuntivas funcionam como unidade: ainda que, assim que, à medida que, desde que, já que, para que, visto que.
Para reconhecer uma locução:
- verifique se o conjunto introduz uma oração;
- confirme se funciona como um conector único;
- interprete a relação construída pelo bloco inteiro.
Compare:
- estudou para a prova —
paraé preposição e introduz grupo nominal; - estudou para passar — preposição diante de infinitivo com valor final;
- estudou para que passasse — locução conjuntiva diante de oração finita.
Conjunções coordenativas

Aditivas
Acrescentam elementos: e, nem, não só... mas também, tanto... como.
- Leu e resumiu.
- Não leu nem resumiu.
- Não só leu, mas também resolveu questões.
O e pode assumir no contexto ideias de sequência, consequência ou contraste: tentou muito e não conseguiu aproxima-se de mas não conseguiu. A identidade habitual da forma não elimina o valor contextual.
Adversativas
Introduzem contraste, quebra de expectativa ou ressalva: mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto.
- Estudou, mas não revisou.
- A teoria é simples; a aplicação, porém, exige atenção.
Mas é a conjunção adversativa prototípica. Formas como porém, contudo e entretanto têm maior mobilidade e são frequentemente descritas como advérbios conectivos em abordagens linguísticas. Para questões de prova, observe a terminologia adotada e, sobretudo, o comportamento sintático.
Em geral, usa-se vírgula antes de mas quando ele introduz oração adversativa. Conectores móveis como porém podem aparecer intercalados entre vírgulas.
Alternativas
Apresentam alternância, escolha ou incompatibilidade: ou, ou... ou, ora... ora, quer... quer, seja... seja.
- Ou revise agora, ou acumulará conteúdo.
- Ora concordava, ora contestava.
Ou pode ser exclusivo — uma alternativa exclui outra — ou inclusivo: candidatos com graduação ou experiência poderão participar pode admitir ambos. O contexto e o gênero textual resolvem a leitura.
Conclusivas
Apresentam conclusão ou consequência inferida: logo, portanto, por conseguinte, assim, pois.
- O prazo terminou; portanto, não cabe inscrição.
- O prazo terminou; não cabe, pois, inscrição.
No valor conclusivo, pois costuma aparecer deslocado, depois do verbo ou entre termos da segunda oração. Essa posição ajuda a distingui-lo do pois explicativo.
Explicativas
Justificam uma ordem, conselho, avaliação ou enunciado anterior: porque, que, pois, porquanto.
- Feche a janela, porque está frio.
- Estude, que a prova será difícil.
- Leve o documento, pois ele será exigido.
A segunda oração sustenta a pertinência do que foi dito; não necessariamente apresenta a causa real de um acontecimento.
Conjunções subordinativas
Integrantes
Que e se introduzem orações substantivas, isto é, orações que ocupam posições típicas de grupos nominais:
- Espero que ele venha — complemento de espero;
- Não sei se ele virá — interrogação indireta integrada ao verbo.
Um teste útil é substituir a oração por isso: Espero isso; Não sei isso. Aqui, a conjunção tem principalmente função gramatical e não recebe rótulo circunstancial.
Não confunda se integrante com condicional:
- Perguntei se havia recurso — conteúdo da pergunta;
- Se houver recurso, avise-me — condição.
Causais
Apresentam a causa ou motivo do fato da oração principal: porque, como, já que, visto que, uma vez que.
- Faltou porque adoeceu.
- Como adoeceu, faltou.
Como causal ocorre tipicamente antes da oração principal. Fora dessa estrutura, pode exprimir comparação, conformidade ou modo.
Comparativas
Estabelecem comparação: como, que, do que, quanto, tal qual.
- A prova foi mais difícil do que esperávamos.
- Ela argumenta como a professora argumenta.
É comum haver elipse: Ana estudou mais do que Bruno [estudou].
Concessivas
Apresentam um fato que poderia impedir o principal, mas não o impede: embora, ainda que, mesmo que, conquanto, apesar de que.
- Embora estivesse cansado, continuou.
- Continuará, mesmo que demore.
Concessão pressupõe quebra de expectativa: o cansaço favoreceria parar, porém a continuação ocorre.
Condicionais
Estabelecem condição ou hipótese: se, caso, contanto que, desde que, a menos que.
- Se revisar, terá mais segurança.
- Participará, desde que cumpra os requisitos.
Desde que pode ser temporal ou condicional: estuda desde que chegou marca início; irá desde que seja autorizado impõe condição.
Conformativas
Indicam conformidade com regra, fonte ou modelo: conforme, como, consoante, segundo.
- Procedeu conforme determina o edital.
Compare segundo o edital — uso prepositivo diante de nome — e segundo determina o edital — conector diante de oração.
Consecutivas
Apresentam consequência associada a intensidade ou configuração anterior: tão... que, tanto... que, tamanho... que, de modo que.
- Estudou tanto que perdeu a hora.
- A explicação foi tão clara que todos entenderam.
Não confunda consequência com conclusão: a consecutiva integra uma estrutura de intensidade; a conclusiva formula uma inferência entre enunciados.
Finais
Expressam finalidade: para que, a fim de que.
- Organizou o material para que todos revisassem.
A finalidade é projetada e intencional; não é um efeito já realizado.
Proporcionais
Relacionam progressões: à medida que, à proporção que, quanto mais... mais, quanto menos... menos.
- À medida que revisava, ganhava confiança.
- Quanto mais pratica, mais aprende.
Evite usar à medida em que quando a relação pretendida é proporcional; a locução consagrada é à medida que.
Temporais
Situam eventos no tempo: quando, enquanto, assim que, logo que, depois que, antes que, desde que.
- Quando o fiscal chegou, a sala silenciou.
- Entregue assim que terminar.
O tempo pode envolver simultaneidade, anterioridade, posterioridade ou início, conforme a locução e o contexto.
Causa ou explicação?

Compare:
- A rua alagou porque choveu — a chuva é apresentada como causa do alagamento;
- Deve ter chovido, porque a rua está alagada — o alagamento justifica a conclusão do falante.
No segundo caso, a rua alagada não causa a chuva; funciona como evidência para a dedução. Outros indícios ajudam:
- causais integram mais diretamente o conteúdo do fato;
- explicativas justificam uma afirmação, ordem ou inferência;
- a causal admite com mais naturalidade anteposição: Porque choveu, a rua alagou;
- imperativo ou avaliação na primeira oração favorece leitura explicativa: Leve o guarda-chuva, porque vai chover.
Nenhum teste isolado resolve todos os exemplos. Estrutura, relação temporal, modalidade e contexto devem convergir.
Classe, valor e função discursiva
A mesma forma pode participar de leituras diferentes:
e: adição prototípica, mas possível sequência, consequência ou contraste;mas: oposição prototípica, mas possível adição enfática;como: causa, comparação ou conformidade;desde que: tempo ou condição;pois: explicação ou conclusão, com comportamento posicional distinto.
Isso não torna a classificação inútil. Mostra que a lista é ponto de partida, enquanto a ocorrência concreta é a unidade de análise.
Conectores discursivos como além disso, contudo, portanto, assim podem articular trechos sem serem conjunções em todas as abordagens. Retome Advérbio para distinguir mobilidade, escopo e comentário sobre o enunciado.
Correlação e paralelismo
Algumas relações são construídas por pares:
- não só... mas também;
- tanto... quanto/como;
- ou... ou;
- ora... ora;
- quer... quer;
- quanto mais... mais.
Os segmentos correlacionados devem manter paralelismo:
- adequado: não só leu o edital, mas também resolveu a prova;
- problemático: não só leu o edital, mas também a prova foi resolvida.
O problema não está no par conjuntivo, mas na mudança injustificada de estrutura entre os membros.
Pontuação essencial
- Em enumeração simples, normalmente não há vírgula antes de
e: leu, resumiu e revisou. - Usa-se geralmente vírgula antes de
masentre orações: leu, mas não revisou. - Orações subordinadas adverbiais antepostas costumam ser separadas: Quando terminou, entregou a prova.
- Conectores móveis podem ficar entre vírgulas: O prazo, portanto, terminou.
- A vírgula não transforma automaticamente uma causal em explicativa; ela pode refletir organização informacional e leitura discursiva.
Pontuação depende da estrutura completa. Não aplique “vírgula antes de toda conjunção”.
Método de análise em questões
- Delimite os segmentos conectados. Procure os verbos e os núcleos.
- Verifique a equivalência. Segmentos de mesma função sugerem coordenação; oração integrada a outra sugere subordinação.
- Inclua a locução inteira. Não analise apenas o último
que. - Formule a relação em palavras. Adição, quebra de expectativa, hipótese, causa, finalidade?
- Teste outra formulação. Substituições ajudam, mas devem preservar estrutura e sentido.
- Observe posição e pontuação. São indícios, não provas absolutas.
- Separe classe de valor. Uma forma prototípica pode adquirir leitura contextual diferente.
Exemplo comentado
Em Embora tivesse estudado, errou porque interpretou o comando depressa:
emboraintroduz fato contrário à expectativa de acerto: concessão;porqueapresenta a leitura apressada como causa do erro;- a oração concessiva está anteposta e separada por vírgula;
depressaé advérbio, não outro conector.
Armadilhas frequentes
Decorar uma conjunção para cada sentido
Como, se, porque, pois e desde que exigem contexto. A forma sozinha não determina a classificação.
Confundir causa, consequência e conclusão
- causa → origem do fato: caiu porque tropeçou;
- consequência → resultado de intensidade/configuração: tropeçou tanto que caiu;
- conclusão → inferência: tropeçou; portanto, pode ter caído.
Chamar todo conector de conjunção
Preposições, advérbios e expressões discursivas também conectam. Observe que tipo de complemento aparece e qual mobilidade a forma possui.
Classificar antes de delimitar as orações
Sem localizar os verbos e a estrutura, é fácil confundir que integrante, pronome relativo e parte de uma locução.
Aplicar pontuação automática
“Antes de e nunca há vírgula” e “antes de conjunção sempre há vírgula” são generalizações falsas. Estrutura, sujeitos, intercalações e intenção discursiva importam.
Síntese para revisão
- Conjunções são invariáveis e articulam segmentos.
- Coordenação liga estruturas equivalentes; subordinação integra uma oração à outra.
- Estrutura sintática e relação semântica são níveis diferentes.
- Conjunções podem ser simples, locuções ou integrar correlações.
- As listas de valores orientam, mas o contexto decide.
- Causal apresenta origem do fato; explicativa justifica o enunciado ou a inferência.
Poisconclusivo tende a aparecer deslocado; o explicativo costuma abrir a segunda oração.- Nem todo conector é conjunção, e pontuação não se resolve por uma palavra isolada.
Próximos passos
Com as classes de palavras consolidadas, avance para Concordância, que examina relações de pessoa, número e gênero, e depois para Regência, que aprofunda a seleção de complementos. Retome Preposição para contrastar ligação entre termos e Advérbio para analisar conectores móveis e escopo.
Referências
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo.
- AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa.
- A conjunção causal e a explicativa — Ciberdúvidas.
- Oração adversativa com valor de adição — Ciberdúvidas.
- Mas, conjunção coordenativa adversativa — Ciberdúvidas.
- Porque e pois em orações causais e explicativas — Ciberdúvidas.
- Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa — Academia Brasileira de Letras.