
Pronome é a classe de palavras que participa da construção da referência: pode representar um nome ou grupo nominal, acompanhá-lo, apontar para participantes da comunicação ou relacionar uma informação a outra. Em Marina revisou o texto e ela o enviou, ela retoma Marina e o recupera o texto.
Ideia central: pronome não é apenas “a palavra que substitui o nome”. Ele também situa pessoas, indica posse, aponta referentes, expressa indefinição, formula perguntas e conecta orações.
O que você precisa saber
Compare:
- Esta candidata apresentou o recurso. — esta acompanha o substantivo;
- Esta apresentou o recurso. — esta ocupa o núcleo do grupo nominal;
- Ela apresentou o recurso. — ela representa uma participante identificável;
- Alguém apresentou o recurso. — alguém cria referência indefinida.
Na terminologia escolar brasileira, fala-se em pronome adjetivo quando a forma acompanha um substantivo e em pronome substantivo quando ocupa a posição do núcleo. Descrições linguísticas atuais podem chamar algumas formas acompanhantes de determinantes. Em provas, identifique a tradição adotada, mas preserve a diferença estrutural: acompanhar não é o mesmo que substituir ou ocupar o núcleo.
Este conteúdo aprofunda Classes de palavras e dialoga com Artigo e Numeral dentro do grupo nominal.
Pessoas do discurso

- primeira pessoa: quem fala — eu, no singular; nós, no plural;
- segunda pessoa: com quem se fala — tu, no singular; vós, no plural;
- terceira pessoa: de quem ou do que se fala — ele, ela, eles, elas.
No português brasileiro, você e vocês normalmente designam o interlocutor, mas exigem verbo e pronomes átonos de terceira pessoa no padrão formal: você trouxe seu documento?; vocês se inscreveram. Isso distingue papel no discurso de forma de concordância.
A gente pode equivaler semanticamente a nós em usos brasileiros, mas, no padrão formal, combina-se com verbo na terceira pessoa do singular: a gente estudou. A mistura a gente estudamos é estigmatizada na norma-padrão, embora ocorra em variedades da fala.
Referência: anáfora, catáfora e dêixis

Anáfora ocorre quando a expressão recupera algo anterior:
A comissão publicou o resultado. Ela também divulgou as notas.
Catáfora ocorre quando a expressão antecipa algo apresentado depois:
Isto é essencial: revisar o edital.
Dêixis depende da situação de fala:
Eu entregarei este documento aqui amanhã.
Para interpretar eu, este, aqui e amanhã, é preciso saber quem fala, onde e quando. Um mesmo pronome pode ser textual em um enunciado e dêitico em outro.
Referência mal construída gera ambiguidade:
Paula avisou Renata de que seu recurso fora aceito.
O possessivo seu pode apontar para Paula ou Renata. Se a distinção importa, reescreva: o recurso de Paula ou o recurso de Renata.
As principais subclasses

Pronomes pessoais
Pronomes pessoais identificam os participantes do discurso e apresentam formas diferentes conforme o emprego sintático.
Formas retas
As formas eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas aparecem tipicamente como sujeito ou predicativo:
- Eu revisei o texto.
- Os responsáveis somos nós.
Formas oblíquas átonas
As formas me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes ligam-se fonologicamente ao verbo e exercem funções de complemento ou participam de construções pronominais:
- A banca me respondeu.
- Eu o consultei. — o retoma algo masculino singular como o edital;
- Eu lhe enviei o documento. — no padrão tradicional, lhe marca complemento introduzido por a ou para;
- Ela se inscreveu.
As formas o, a, os, as podem sofrer alteração depois de certas terminações verbais:
- revisar + o → revisá-lo;
- fiz + o → fi-lo;
- põem + as → põem-nas.
A posição desses pronomes antes, no interior ou depois do verbo pertence ao estudo específico de colocação pronominal. Aqui, o objetivo é reconhecer forma, referente e função.
Formas oblíquas tônicas
As formas mim, comigo, ti, contigo, si, consigo, ele/ela, nós, conosco, vós, convosco, eles/elas aparecem geralmente depois de preposição:
- para mim;
- entre mim e você;
- com ela;
- consigo.
Eu ou mim?
Use eu quando o pronome for sujeito de um infinitivo:
- Este material é para eu estudar — eu pratica a ação de estudar.
Use mim quando for complemento da preposição e não sujeito:
- Este material é para mim;
- Entre mim e você não há dúvida.
A frase para mim estudar não pertence ao padrão formal porque mim não funciona como sujeito. Já em é difícil para mim estudar à noite, há análises e leituras em que para mim se associa a difícil; reescrever como para mim, é difícil estudar à noite elimina a dúvida.
Si e consigo
Si e consigo são reflexivos de terceira pessoa no padrão tradicional:
- Ela falou de si.
- O candidato trouxe consigo os documentos.
Em eu trouxe o documento comigo, usa-se comigo, não consigo, porque o referente é a primeira pessoa.
Pronomes de tratamento
Formas como você, senhor, senhora, Vossa Excelência dirigem-se ao interlocutor, mas pedem concordância de terceira pessoa:
- Vossa Excelência decidirá.
- O senhor deseja assinar?
Na tradição protocolar, Vossa é usado ao dirigir-se à autoridade; Sua, ao falar sobre ela: Vossa Excelência analisará; Sua Excelência analisou. O tratamento adequado depende do contexto institucional e de normas atualizadas do órgão.
Pronomes possessivos
Possessivos relacionam algo às pessoas do discurso:
| Pessoa relacionada | Formas principais |
|---|---|
| primeira do singular | meu, minha, meus, minhas |
| segunda do singular | teu, tua, teus, tuas |
| terceira | seu, sua, seus, suas |
| primeira do plural | nosso, nossa, nossos, nossas |
| segunda do plural | vosso, vossa, vossos, vossas |
Eles concordam com a coisa possuída, não com o possuidor: um homem pode dizer minha inscrição; várias candidatas podem dizer nosso resultado se resultado estiver no singular.
Posse é apenas um dos valores possíveis:
- meu livro — relação de posse;
- meu amigo — relação social;
- minha cidade — pertencimento ou origem;
- Joana levantou a mão — partes do corpo frequentemente dispensam possessivo quando a referência é clara.
Seu/sua pode ser ambíguo porque se relaciona a ele, ela, eles, elas, você, vocês e formas de tratamento. Use dele/dela quando precisar esclarecer, observando que a troca também pode alterar estilo e ênfase.
Pronomes demonstrativos
Demonstrativos localizam referentes no espaço, no tempo e no próprio texto:
| Série | Formas variáveis | Formas invariáveis | Valor básico tradicional |
|---|---|---|---|
| primeira | este, esta, estes, estas | isto | próximo de quem fala |
| segunda | esse, essa, esses, essas | isso | próximo do interlocutor |
| terceira | aquele, aquela, aqueles, aquelas | aquilo | distante de ambos |
No tempo, este tende a associar-se ao presente — este ano — e aquele, a período distante — naquela época. Esse pode retomar tempo próximo já mencionado.
No texto, a tradição recomenda:
- este/isto para antecipar: Só desejo isto: aprovação;
- esse/isso para retomar: A prova foi adiada. Isso alterou o cronograma;
- este e aquele para distinguir dois termos anteriores: Português e Matemática exigem estratégias diferentes; esta demanda cálculo, aquele, leitura cuidadosa.
No português brasileiro real, esse frequentemente ocupa também o espaço de este, sobretudo na fala. Em questões normativas, verifique se a banca cobra a distinção tradicional; em interpretação, observe o uso efetivo e a clareza referencial.
Também têm valor demonstrativo o, a, os, as quando equivalem a aquele(s), aquela(s), aquilo:
- Escolhi o que estava completo = aquele que estava completo.
Não confunda esse uso com o artigo definido que acompanha um substantivo expresso.
Pronomes indefinidos
Indefinidos referem-se à terceira pessoa de modo vago, indeterminado ou quantitativamente impreciso: alguém, ninguém, algo, nada, tudo, algum, nenhum, todo, outro, muito, pouco, certo, qualquer, vários, cada.
O contexto e a posição podem mudar o valor:
- certa resposta — uma resposta não identificada ou determinada;
- resposta certa — certa é adjetivo, com sentido de correta;
- qualquer candidato pode participar — generalização;
- um candidato qualquer — indivíduo não particularizado, às vezes com nuance depreciativa conforme o contexto;
- todo candidato — cada candidato, leitura distributiva;
- todo o conteúdo — conteúdo inteiro.
Algumas formas são invariáveis, como alguém, ninguém, tudo, nada, cada; outras concordam com o nome: algumas questões, muitos recursos, nenhumas provas — esta última forma é gramatical, embora rara em muitos usos.
Pronomes interrogativos
Que, quem, qual/quais, quanto/quanta/quantos/quantas formulam perguntas diretas ou indiretas:
- Quem chegou?
- Qual conteúdo você revisou?
- Não sei quem chegou.
- Perguntei quantas vagas havia.
Pergunta indireta não leva necessariamente ponto de interrogação. A classe depende da função interrogativa, não da pontuação.
Que pode acompanhar substantivo — que matéria? — e qual pode representar uma escolha — qual prefere?. Em descrições atuais, formas acompanhantes podem receber o nome de determinantes interrogativos.
Pronomes relativos
Relativos retomam um antecedente e introduzem uma oração que o caracteriza ou delimita:
Li o edital que foi publicado.
Que retoma edital e exerce função dentro de que foi publicado: é sujeito de foi publicado. Para descobrir a função, reconstrua a oração com o antecedente: o edital foi publicado.
Que e o qual
Que é invariável e muito produtivo. O qual, a qual, os quais, as quais concordam com o antecedente e podem esclarecer a estrutura, sobretudo depois de preposições:
- a norma a que obedecemos;
- a norma à qual obedecemos;
- o projeto sobre o qual conversamos.
A preposição não é escolhida pelo pronome, mas pela função exercida na oração: quem obedece, obedece a algo; quem conversa sobre um tema, conversa sobre algo.
Quem
Com antecedente expresso, quem refere-se normalmente a pessoa e costuma vir precedido de preposição:
- a servidora a quem entreguei o documento;
- o colega de quem recebi a mensagem.
Sem antecedente expresso, pode equivaler a “a pessoa que”: Quem estuda com constância progride. Não substitua automaticamente que por quem apenas porque o antecedente é humano.
Cujo
Cujo, cuja, cujos, cujas estabelecem relação de posse ou pertencimento entre o antecedente e o substantivo seguinte:
- a candidata cujo recurso foi aceito;
- a candidata cujas notas aumentaram.
O relativo concorda com o elemento possuído (recurso/notas), não com o antecedente (candidata). Não se usa artigo depois dele no padrão formal: cujo recurso, não cujo o recurso. A preposição aparece quando a função interna a exige: o projeto de cuja elaboração participei.
Onde
Onde retoma lugar, literal ou tratado como espaço:
- a cidade onde nasci;
- a sala onde ocorreu a prova.
Para antecedentes abstratos que não representam lugar, a norma tradicional prefere em que/no qual: a situação em que nos encontramos, e não a situação onde. Aonde associa-se a movimento com preposição a: a cidade aonde fomos. De onde/donde marca origem: a cidade de onde viemos.
A orientação do Ciberdúvidas sobre onde, em que e no qual reforça o valor locativo de onde na tradição normativa.
Pronome ou outra classe?
Artigo ou pronome
- A candidata chegou. — a acompanha substantivo: artigo;
- Eu a encontrei. — a retoma um grupo nominal: pronome pessoal;
- Escolhi a que tinha experiência. — a equivale a aquela: demonstrativo, seguido do relativo que.
Pronome ou adjetivo
- certa pessoa telefonou — indefinição: pronome indefinido na tradição escolar;
- a pessoa certa telefonou — propriedade “correta/adequada”: adjetivo.
Pronome ou advérbio
- muitos candidatos — muitos acompanha substantivo e quantifica;
- os candidatos estudaram muito — muito modifica o verbo e é advérbio, invariável.
Pronome relativo ou conjunção
- O livro que comprei chegou. — que retoma livro e exerce função em comprei o livro: relativo;
- Afirmo que o livro chegou. — que não retoma antecedente nem exerce função na oração introduzida: conjunção integrante.
Um método seguro de análise
- Localize a forma candidata. Não confie apenas em listas, pois várias formas pertencem a mais de uma classe.
- Veja se acompanha ou ocupa o núcleo. Isso separa emprego adjetivo/determinante de emprego substantivo.
- Recupere o referente. Está no texto, virá depois, depende da situação ou permanece indefinido?
- Identifique o valor. Pessoa, posse, demonstração, indefinição, pergunta ou relação?
- Teste a função e a regência. Especialmente com pessoais oblíquos e relativos.
- Verifique ambiguidade. Há mais de um antecedente possível? A reescrita mantém o sentido?
Exemplos comentados
“Os candidatos receberam as provas e as conferiram”
O primeiro as é artigo de provas. O segundo é pronome pessoal oblíquo e retoma as provas. A mesma forma gráfica exerce classes diferentes.
“Esta é a regra a que obedecemos”
Esta é demonstrativo empregado substantivamente. Que retoma regra, e a preposição a decorre da regência de obedecer: obedecemos a uma regra.
“O estudante contou ao professor que seu resultado melhorou”
Seu pode referir-se ao estudante ou ao professor. Sem contexto, há ambiguidade. A clareza exige explicitar o resultado do estudante ou o resultado do professor.
“Ninguém informou quantas vagas restavam”
Ninguém é indefinido; quantas é interrogativo em pergunta indireta. Uma frase sem ponto de interrogação pode conter pronome interrogativo.
Armadilhas frequentes
- Pronome não apenas substitui substantivo: também o acompanha, aponta e relaciona.
- Você designa interlocutor, mas combina-se formalmente com terceira pessoa.
- Mim não é sujeito de infinitivo no padrão: para eu fazer.
- Possessivos concordam com a coisa relacionada, não com o possuidor.
- Esse e este apresentam variação real de uso; reconheça a regra tradicional sem ignorar o contexto.
- Cujo concorda com o substantivo seguinte e não admite artigo depois de si.
- Onde é preferencialmente locativo na norma-padrão.
- Pronome relativo exerce função dentro da oração; conjunção integrante não retoma antecedente.
- A colocação de me, te, se, o, lhe é assunto próprio e não se resolve apenas identificando a classe.
Síntese para revisão
- Pessoais organizam participantes; possessivos, relações com eles.
- Demonstrativos localizam no espaço, tempo ou texto.
- Indefinidos constroem referência vaga ou quantidade imprecisa.
- Interrogativos formulam perguntas diretas ou indiretas.
- Relativos retomam antecedente e exercem função na oração que introduzem.
- Anáfora olha para trás; catáfora, para frente; dêixis, para a situação.
- Forma igual não garante classe igual: estrutura, referente e contexto decidem.
- Clareza referencial importa tanto quanto classificação.
Próximos passos
Avance para Verbo, necessário para analisar flexões, concordância e formas pessoais, e para Preposição, essencial para a regência dos relativos e para o contraste entre mim e eu. Colocação pronominal trata de próclise, ênclise e mesóclise. Consolide também Artigo, Numeral e Classes de palavras.
Referências para aprofundamento
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo.
- AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa.
- Os pronomes relativos — Ciberdúvidas.
- Usos situacional e textual dos demonstrativos — Ciberdúvidas.
- Onde, em que e no qual — Ciberdúvidas.
- Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa — ABL.